ed 01/2009 : caiman.de

revista de cultura e viagem para américa-latina, espanha e portugal : [edição atual] / [primeira página] / [arquivo: edição/país/coluna]
deutsch// 


[art_3] Brasil: Cartas de uma baiana na Alemanha

Nós do Caiman recebemos um pedido especial de uma brasileira que veio passar o Natal na Alemanha. No contato realizado através de e-mail, ela pede que publiquemos notícias suas para a família e amigos no Brasil. Assim, editamos as cartas, as fotos e os vídeos e convidamos a todos a participar da experiência dela. Nada mais é do que um olhar brasileiro sob as coisas da nossa terra.

Amigos amados, tenho tantas novidades!!!!!
É uma lista sem fim, mas vou falar brevemente sobre o que acho que vocês mais gostariam de ver. Archie querido, a comida aqui é uma coisa de maluco... tudo é delicioso e há uma variedade inimaginável. Olha, na feira eu queria você comigo só para te mostrar a barraca de queijos. Amigo, eu nem sei lhe dizer o que era aquilo... como você mesmo diz, a abundância era pornográfica! Eu só espero chegar em Santo Amaro e ainda encontrar um pedacinho de queijo de cuia, aquele tipo reino que no Brasil é vendido numa lata que parece uma cuia, sabe? Esse, que nós só comemos no Natal e no São João porque é caro, aqui não encontrei..

Déa, ia sei difícil segurar a gula dele. Amiga, eu que nem sou gulosa confesso que aqui fiquei... E pra ferrar com tudo a mãe de Tom cozinha maravilhosamente bem, tenho comido verdadeiras delícias aqui. E os chocolates? André e Archinho iriam adorar!!! Eu gosto mais de um que vem com uma noz daqui. É inexplicavelmente delicioso, levo um desse pra vocês provarem, ok? E o marzipan, oh Archie...

Gente, tem também a Feira de Natal. Andréa, tantas coisinhas que mulher adora comprar... oh amiga, a gente ia fazer a festa! Tanto artesanato diferente! Tenho certeza que você ia curtir passar um dia circulando pelas Feiras, sim, são muitas, em todas as partes. Muitas feiras e muitas barracas, um inferno para o bolso!

E foi numa Feira dessa que eu descobri a delícia da salsicha alemã. Nada de sacanagem, heim! Archie, você ia enlouquecer!!!! Amigos, não resisti, fiz vídeos para vocês verem, assistam por favor. Vão ficar com água na boca, salsicha com vinho quente nesse frio do matar é um manjar dos deuses! Mas combinaremos assim, vamos organizar uma viagem dessa nós quatro, ok? Conheceremos a região da Renânia do Norte, onde estou, e daqui iremos também para a Holanda, o que acham?

Vocês precisam ver o que vi, é de babar. Tantas histórias, tantos monumentos, tudo tão diferente... eita que agora é que a gente faz a mutação de vez em Andréa: matemática-museóloga!!!!!

Beijos queridos, queria poder comprar a Alemanha só pra vocês poderem vivenciar tudo que vi, comi, senti e vivi aqui.vChego já, inté!

Karina.



Pai, saudades, muitas saudades.
Escrevo para o senhor e para Bola para falar um pouquinho sobre o jogo de futebol que assisti do campeonato alemão. Achei que esse seria o melhor assunto para contar pra vocês. Coisa de menino, vamos ver se a menina aqui entende alguma coisa também...

Bom, a partida que assisti foi no estádio de futebol em Dortmund e os times eram BVB 09 e Mönchengladbach. O jogo aconteceu no estádio de Westfalen que, segundo Thomas, marca a primeira derrota da seleção alemã na copa do mundo de 2006. Derrota essa que a eliminou, no jogo da semi-final contra a seleção italiana. O fato é que o jogo foi animado e emocionante.

A torcida estava presente e possuía a mesma animação das brasileiras com a diferença que no Brasil há uma batucada que vai do início ao final do jogo sendo ainda mais envolvente quando a vitória chega. O amarelo e preto do BVB 09, não sei direito porque – talvez tenha sido por causa do vermelho que alguns torcedores vestiam, talvez tenha sido porque lembrei da sala ‘exaltação’ do Museu do Futebol – me fez lembrar da torcida do Sport. Acho que foi também porque o uniforme deles era muito parecido com um que Elena ganhou, na época que morávamos em Recife. Além do mais, o leão, que é símbolo dessa região da Alemanha, tem a pose muito parecida com o leão do Sport, o fato é que lembrei!

Do outro lado, o azul do Mönchengladbach me lembrou o pobre Grêmio que perdeu o campeonato brasileiro para o tricolor, São Paulo. Viu como mesmo fora do país eu ando informada! Ok, ok, ok, eu sei que nem posso abusar desse jeito porque o meu tricolor Bahia, nem faz parte da elite brasileira, mas nem por isso deixou de ser o meu time do coração, não é? Aliás, fazendo justiça a torcida do Bahia, me conte como anda o orgulho desses torcedores. Ainda somos a maior torcida em presença em jogos no brasileirão, ou a terceira divisão e o acidente na Fonte Nova inibiram os torcedores? Pai, o senhor tem ido aos jogos? Aqui, Thomas me falou, é uma dificuldade comprar ingressos para os jogos porque eles são vendidos como num pacotão que dá direito ao comprador a assistir todos os jogos. Claro que isso é inviável no Brasil, mas aqui funciona bem.

Pai, lembrei de muitas outras coisas. Lembrei dos finais de semana em que íamos todos para o Fazendão assistir Bola jogar, aliás, um menino que tem o apelido de Bola, tinha mesmo que algum dia jogar futebol! Lembrei da foto dele com Zanata e de alguns jogos que assistimos juntos. Eu gostava de ir ao estádio. Gostava das coisas que comíamos lá. Aqui não têm ambulantes passando nem no intervalo do jogo, se você quiser comprar qualquer coisa precisa ir à lanchonete: comodidade zero! Ah, não tem também rolete! Puxa vida, fiquei com uma vontade danada de chupar cana. Lembra que mesmo quando nós não íamos ao estádio o senhor trazia cana pra gente?

Bola, lembra como a gente brigava? Poxa irmão, você era tão pirracento! Mas até mesmo da sua pirraça eu sinto cinco minutos de saudade...

Finalizo contando o susto que tomei na cozinha da casa de Tom por causa do futebol. Estava tirando os pratos da mesa e levando para a cozinha quando a mãe dele deu um grito absurdo. Eu fiquei gelada, achei que tinha feito uma coisa muito errada, mas para minha surpresa, ela saiu toda se bulindo pra sala falando em alemão ‘o grande feito’. Seu time, o Hoffenheim, passou na frente do Bayern (time de Tom) em saldos de gol e estando assim em primeiro lugar no campeonato alemão. É mole? Você ainda acha que futebol é coisa só de meninos?...

Detalhe, esse time estava na terceira divisão, subiu pra segunda, um ano depois estava na elite e, no primeiro ano nessa categoria, fechou a primeira rodada na frente inclusive do Bayern. Incrível, não? Tomara que nosso Bahia, milagrosamente, aconteça a mesma coisa...

Beijos gigantes pra vocês, Neto e João.

Karina.



Carmosa e Jara,
Eu sei que vocês devem estar me xingando porque demorei um pouco para escrever, mas é que são tantas coisas para ver e compreender que o tempo ficou curto. Curtíssimo, por sinal. O dia acaba às quatro da tarde, pode? Bom, deixando as reclamações de lado, vou contar sobre as casas que com certeza vocês iriam adorar morar.

Passeando pelas ruas da cidade de Remscheid é impossível não percebê-las. As casinhas mais parecem casas de brinquedo! As ladeiras, as montanhas, as árvores secas, as ruas desertas, o asfalto impecável, o trânsito fluente, tudo parece exatamente igual aos inúmeros filmes que assistimos pela televisão brasileira. Carmem, o trânsito é igual ao da Avenida Bandeirantes... flui que é uma beleza!



No entanto, uma coisa me chamou muita atenção: algumas casas são, para as baianas e também para algumas alagoanas, casas das mulheres de Oxum e de Yemanjá! Meninas imaginem que essas casas possuem uma cobertura de pedra na fachada e no telhado que, dispostas nas paredes, parecem escamas de peixe! Ora, quem é do mar não enjoa... tenho certeza que vocês iriam A-DO-RAR morar numa casa dessa. Ainda há escamas pra todos os gostos... quadradinhas, redondinhas, retangulares, de ponta, em formato de leque, tem de todo jeito, vai ser difícil escolher, heim!


Bom, eu não estou numa casa de escama de peixe, nada contra quem é do mar, vocês são minhas amigas queridas! Mas eu sou dos ventos, da chuva, das grandes tempestades e assim, estou na casa certa! Convivo numa casa onde a matriarca chama-se Bärbel que traduzindo para o português é Bárbara! Xou de bola!!!! Êparei-oyá! É mole uma coisa dessa? Devem ser os orixás tomando conta de mim mesmo estando tão longe.

Aqui em casa (olha a intimidade desnecessária!), quando se entra o cenário também parece familiar. Gigante, a casa possui vários cômodos em andares que se comunicam, mas que também mantêm o isolamento. As paredes são forradas com papel de parede, os móveis são belíssimos, há tapetes em todos os cômodos, tudo está sempre em ordem.

Pensando bem, acho que o familiar ficou por conta do Instituto Feminino... nem de longe essa casa se parece com a casa de alguém da minha família. Pode até parecer com a casa da sua avó Carmem, mas duvido que também pareça com a de alguém da família de Jara. O que você me diz amiga?

Bem, continuando, a presença de livros foi a primeira coisa que mais me chamou atenção. Como se lê! Os móveis estão repletos deles, há tantos que mal cabem nas prateleiras. Há também muitas plantas espalhadas pela casa, coisa que, por sinal, é muito semelhante no Brasil. A minha mãe iria adorar! Ela também tem sempre muitas plantas, inclusive árvores frutíferas que dão frutos o ano inteiro, mesmo quando não é tempo...

Há também a presença de animais. Estes passeiam livremente e possuem mais regalias que o próprio “dono da casa”. Segundo meu alemão, eles são os verdadeiros “donos da casa”.

Carmem, a cachorra de Tom é tão cachorra que nem te conto. Já corrompi, claro! Jara, a melhor palavra que a define é ‘porpeta’ no sentido mais Paulinha de ser! Gorda, gordinha mesmo. E eles a chamam, carinhosamente, de ‘Süsse’ que em alemão quer dizer doce, mas eu baianei chamando-a de ZUZA, a cachorra gorda, tão parruda quanto minha avó!

E as portas? No Brasil elas fecham entrando na moldura da parede e aqui, estranhamente elas apresentam uma borda que serve tanto para reter o calor dentro do ambiente como para isolar do vento frio que vem de fora. Pra mim é muito estranho uma porta que não entre na estrutura da parede.

Por outro lado, exatamente igual ao Brasil, há muitos retratos da família e desenhos dos filhos e netos por todos os lados: uma grande exposição de outros tempos, tempos passados e tempos futuros. E as porcelanas? Marijara iria adorar, eu estou enlouquecendo... Mas é a avó de Tom que bate recorde em receber com requinte: um conjuntinho de chá de cristal que é pra enlouquecer qualquer mulher, mas Jara, a colherinha de açúcar do açucareiro da mãe de Tom você iria gostar ainda mais! Amiga, a colher é toda decorada e no alto do cabo há uma rosa tão linda! Lembra de uma que nós vimos na Benedito Calixto? Era bem parecida...

Por fim, aviso a minha amiga Carmosa que, se por um lado ela iria adorar morar numa casa de escama, por outro iria enlouquecer porque nessas casas não há ralo no chão do banheiro. Filha, ninguém faz faxina jogando água no chão! Avalie isso!!!! Você do mar sem poder molhar a casa toda! Ia ou não ia ser um inferno?

Calma, calma, por outro lado, vocês duas iriam adorar ver em pleno funcionamento o uso correto dos materiais recicláveis. Aqui todo o lixo é separado e tudo vai para reciclagem. Sacola de plástico? Não, só em casos extremos! Eu mesma já providenciei a minha: uma sacola charmosa, azul marinho, com partitura de Beethoven porque museóloga chique não pode usar qualquer sacola... A minha é do Museu Casa de Beethoven.

Cheiro nas duas, morro de saudades e depois conto mais.

Karina.

Texto: Karina
Fotos e videos: Tom

[print version] / [arquivo: brasil]

 

 


© caiman.de : [disclaimer] / [imprint]