
|
|
 |
 |
 |
 |
[art_1] Brasil: Che e o cozinheiro
Mais um Carnaval...

Já aviso logo de cara: não sou a pessoa certa para escrever sobre o Carnaval! Todo mundo sabe disso e sempre reclama da minha chatice. Mas, como sempre, sobra pra mim escrever algo sobre a inevitável quinta estação.... "A final de contas, é você que vive no Brasil... Você quer o que?"
"Como assim, você não curte o Carnaval?" Bom, vamos dizer que estou tentar estabelecer uma certa amizade com ele. Isso já desde que me mudei da minha cidadezinha natal na Alemanha, um reduto luterano, aliás, para a catolicíssima Colônia, a trinta quilômetros mais para o sudoeste. Como uma tão pequena distância pode mudar as coisas...
Sem falar depois de ter me mudado ainda mais 11.000 quilômetros a mais para o sudoeste. Estou em pleno Rio de Janeiro, no meio da muvuca. Pelo sétimo ano consecutivo passo o Carnaval na Cidade Maravilhosa. Normalmente, me ocupo em tirar fotos no Sambódromo ou ando pelas ruas da cidade na busca por sons bacanas. Percebi que meu humor sempre piora ao invés de melhorar quanto mais pessoas ficam pulando ao meu redor. Oh luterano chato! Será que não sou normal? Sempre me faço essa pergunta. E outra também: a final de contas, para que tudo isso?
Dizem que os alemães precisam do Carnaval para tirar um sarro dos governantes; alegria e deboche como válvula das frustrações do Zé Ninguém. (Falando nisso, os ricos e famosos só aparecem nos camarotes das cervejarias no Sambódromo a troca de um cachê salgado...).
Protesto contra os de "Lá em cima"? Bom, os alemães que durante 360 dias do ano são bem-comportadinhos (para não dizer travados...), com certeza precisam de cinco dias para se soltar e debochar um pouco. ("Precisa ter culhões de elefante para aguentar esse alemão," como sempre fala minha namorada...) Mas os sempre bacanas brasileiros?
Por exemplo minha namorada: ela canta as músicas do carnaval o ano inteiro. E quase sempre todos debocham dos de "lá em cima". Para que precisam fazê-lo também durante o Carnaval? "Você nem imagina o quanto que eu vou pular no carnaval que vem. Nada vai me segurar," meu amor avisa. As vezes, até soa como uma ameaça.... ("É uma ameaça de verdade, viu," ela avisa ao ler este texto.)
Pensando bem, o que se faz durante o carnaval são as mesmas coisas que você faz durante o resto do ano. Só que agora se faz junto com cem mil pessoas e sob um sol assassino de sessenta graus de sensação térmica. E, aos invés de pagar um Real pela lata de cerveja, agora se paga quatro, antes de pegar filas enormes rente ao banheiro do barzinho da esquina.

Bom, avisei logo que não sou a pessoa certa para escrever sobre o Carnaval. Pelo menos não sou a única pessoa que vira um chato. Minha terapeuta também não gosta de Carnaval, apesar de ela ser brasileira. Confesso, nos falamos sobre essa questão nas consultas. "Sou uma pessoa anormal?" pergunto, e ela me observa com olhos bem abertos e pergunta: "O que você acha?"
Pelo menos agora fiquei sabendo que Che Guevara visitou Colônia. Até chegou a conhecer Munique. Encontro ele e seu cozinheiro ao lado de um trio elétrico na Gávea. Acende um charuto para mandar um halô pra Alemanha. Oh, o velho revolucionário!
De repente, seria legal passar o próximo Carnaval num lugar diferente. Quem sabe, daqui a um ano estarei pulando, junto com mais 500.000 corpos suados, pelas ruas de Salvador. Minha namorada já avisou que em 2010 não vai ter como eu escapar dessa. Vou ter que cantar "Vamos fugir" em frente do camarote "Expresso 2222"? Por que sempre justamente eu quem não gosta de Carnaval?
Quem sabe eu deveria combinar uma coisa com ela: pulo os cinco dias do Carnaval sem pausa. Em troco, ela deixa de cantar as músicas de Carnaval e evita pular na frente da televisão durante o resto do ano. Ai quero ver se ela aguenta...
|
|
|
 |
 |
|