Foi grande a alegria das 30.000 pessoas reunidas na sexta-feira, dia dois de outubro, na areia em frente ao mundialmente famoso hotel Copacabana Palace. Exatamente às 14h15 o presidente do COI Jacques Rogge tinha aberto o envelope e anunciado o resultado tão esperado: os Jogos Olímpicos de 2016 serão realizados na "cidade maravilhosa".
Enquanto os cariocas cantavam, os membros da delegação brasileira na distante Copenhague se abraçaram. Foi provavelmente o dia mais bonito da sua vida, disse o presidente Lula, com os olhos cheios de lagrimas. Pouco depois, declarou o fim do status do Brasil como país de segunda classe.
Tudo bem que as pessoas não dançaram a noite inteira - como relataram muitas agência de notícias depois. E a festa não continuou até as primeiras horas da manhã de segunda-feira, como muitos tinham previsto. No final da tarde desta sexta-feira as pessoas foram para casa quando o sol se foi. Mas a alegria e a esperança tinham invadidas os Cariocas.
Apenas alguns dias depois, o Rio de Janeiro voltou para as manchetes do mundo inteiro. Traficantes da favela do Morro dos Macacos tinham abatido, durante um tiroteio com a Policia Militar que durou 12 horas, um helicóptero da polícia. Três policiais morreram carbonizados. O combate deixou mais 19 "suspeitos" mortos, além de mais três adolescentes mortos por balas perdidas. Desde então a polícia continua com sua caça aos responsáveis pela queda do helicóptero, com o balanço mortal superando 50 mortos.
Enquanto o Brasil e o Rio ainda permaneceram em estado de choque, a imprensa internacional já colocou a segurança dos Jogos de 2016 em questão. Também porque o Rio tinha feito um esforço especial durante sua campanha Rio 2016 para provar que fosse capaz de assegurar a segurança na cidade. E não só isso - o presidente Lula havia se aventurado em prever que os investimentos de bilhões e bilhões de dólares, injetados na cidade olímpica até 2016, poderiam resolver o problema das favela.
Bom, falta muito para chegar lá. Estima-se que cerca de 2,000 traficantes morrem a cada ano no combate entre os gangues nas favelas. E mais pelo menos 1,000 bandidos são mortos pela policia. No entanto, os números podem ser até maiores - alguns estimam que podem chegar a 5-6,000 mortes nas favelas do Rio a cada ano.
"Os moradores das favelas estão presos entre “dois monstros”, por um lado narcotraficantes e milicianos, grupos criminosos extremamente violentos, e por outro lado a policia, que também é muito violenta e que normalmente não está lá para proteger estes habitantes,” diz Ignácio Cano, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “Está lá para proteger o resto da cidade dos que moram naqueles locais.”
Os dois lados entram nessa guerra fortemente armados. A policia com seus carros e helicópteros blindados, e os traficantes com armamento moderno capaz de abater até helicópteros.
O governo já pensa em triplicar os gastos com a policia no Rio para garantir a segurança dos jogos de 2016. Mas, não falta policia, segundo Ignácio Cano. "É um problema de como a segurança pública é percebida e como se atua na segurança publica. A segurança pública é percebida de uma forma extremamente militarizada, então a resposta é militar. A policia é militar, o treinamento militarizado, se baseia numa ocupação de espaços, uma entrada para ocupação de territórios com uma saída depois. Acaba com muitas vitimas e não gera segurança.”
Mas Cano não vê uma ameaça direta para os jogos. “Em geral quando há um grande evento a situação de insegurança não é um grande problema. Porque os eventos são desenvolvidos em lugares específicos da cidade, e estes locais são bastante protegidos. No segundo lugar, estes eventos em geral trazem recursos para a cidade. No caso dos Jogos Pan-americanos houve uma estratégia e eu acho bem-sucedida do governo de distribuir recursos nas comunidades. De contratar, por exemplo, os garotos das comunidades como guias. Fazer as pessoas perceberem que este evento traria benefícios até econômicos para o conjunto da cidade. E a policia também não inicia grande operações nas favelas neste período.”
O mesmo deve acontecer em 2016 quando milhares de turistas estarão na cidade. “Os turistas de vez em quando enfrentam um furto de uma câmera, mas nada grave. Para um turista o Rio de Janeiro não é muito mais perigoso do que muitas outras metrópoles do mundo. O Rio de Janeiro é perigoso para os habitantes das áreas pobres no Rio de Janeiro.”
No final de outubro, representantes do COI se encontraram com as autoridades do Rio para preparar os primeiros passos no caminho para as Olimpíadas. O que é certo é que os jogos vão ser caros - 28 bilhões de reais estão agendados. Mas pode ser mais. A chefe da casa civil do presidente Lula e possível candidata presidencial para 2010, Dilma Rousseff, já garantiu que gastos além de 30 bilhões serão garantidos pelo governo.
Há, no Rio, uma esperança de transformar os jogos num negócio lucrativo. Para cada dólar investido pelo governo esperam-se mais 3,30 dólares vindo do setor privado. Anualmente 120,000 postos de trabalho poderiam ser criados, metade deles diretamente na cidade do Rio de Janeiro. Se tudo isso se realizará ninguém sabe. Na última semana o governo abriu linhas de crédito no valor de cerca de 5 bilhões de reais para garantir a construção dos 12 estádios para a Copa do Mundo de 2014. Esperava-se inicialmente que o dinheiro viria do setor privado.
Texto + Fotos + Videos: Thomas Milz
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